A personalidade da paciente com Lúpus Eritematoso Sistêmico: uma visão arquetípica.
Dra. Sílvia Fernanda Lima de Moura Cal
O Lúpus Eritematoso Sistêmico é uma doença auto-imune, de etiologia desconhecida, com aspectos multifatoriais, incluindo os estressores psicossociais como fatores que cada vez mais são considerados pelas pesquisas como de relevância no surgimento da doença. Apresenta diferentes manifestações laboratoriais, e caracteriza-se por período de doença ativa e período de remissão dos sintomas. Considerada enfermidade crônica, acomete o tecido conectivo de vários órgãos, podendo levar à falência de órgãos vitais ou comprometer suas funções, com prognóstico imprevisível, além de apresentar manifestações neuropsiquiátricas como psicose, convulsão, distúrbio do humor e cefaléia persistente.
Lúpus em latim significa lobo. Nomeado pelo médico francês Cazenave em 1851 por achar que as manchas que freqüentemente se desenvolvem na pele do paciente lembravam a mordida de um lobo. Como toda doença auto-imune, a defesa imunológica se vira contra o próprio organismo, como pele, articulações, fígado, coração, pulmão, rins e cérebro. Os auto-anticorpos agem contra o próprio tecido do organismo (auto-agressão) ou seja há um medo equivocado do corpo que acredita que elementos saudáveis são estranhos e intrusos, (como se esperasse um ataque).
Um número significativo de pacientes com LES sofre de depressão. Em recente estudo, realizado pela autora e col (trabalho ainda não totalmentefinalizado) para levantar a prevalência da depressão em pacientes com LES, em um centro de referência de Salvador, observou-se que 40,6% dos pacientes apresentavam depressão.
Acreditou-se até o momento que as causas da depressão são respostas à dolorosa cronicidade da doença com conseqüência no campo social, profissional, afetivo, além de várias limitações, e resultante baixa auto-estima.
Trata-se de uma patologia predominantemente do universo feminino, atingindo mulheres de todas as idades, mas principalmente jovens, na proporção de dez mulheres para cada homem.
Buscando fundamentação na Psicoterapia Analítica, recorremos à afirmação de Jung:
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Um funcionamento inadequado da psique pode causar tremendos prejuízos ao corpo, da mesma forma que, inversamente, um sofrimento corporal consegue afetar a alma; pois alma e corpo não são separados, mas animados por uma mesma vida. Assim sendo é rara a doença do corpo que não seja de origem psíquica, que não tenha implicações na alma”1
Os sintomas são vistos como símbolos capazes de indicar as causas e finalidade da doença, numa tentativa de restaurar o caminho para a individuação.
Individuação é a meta da caminhada, processo pelo qual o indivíduo torna-se uma unidade autônoma e indivisível, uma totalidade
O símbolo une o inconsciente ao consciente, utilizando para isto as imagens. Os sintomas psíquicos, são expressões simbólicas de complexos patogênicos e estes por sua vez têm em seu núcleo um arquétipo.
“Arque” significa início, origem, causa, princípio, e “Tipo” significa batida, cunhar moedas, figura, imagem, retrato, prefiguração, modelo, ordem básica etc o que sugere “estrutura primária” ou “imagem primordial “
Jung percebeu a partir de suas próprias experiências e das experiências de seus pacientes que no inconsciente estão presentes não só suas experiências pessoais, mas também as herdadas da imaginação humana, ou seja, no inconsciente habitam as experiências pessoais e as impessoais ou transpessoais que se originam do inconsciente coletivo.
Os arquétipos se constituem como uma matriz psíquica comum a toda humanidade e por seu intermédio somos impulsionados a repetir certas situações típicas e viver certas experiências, funcionando como um pano de fundo destas experiências. Somos de uma certa forma guiados pelo arquétipo, herdamos não a experiência e sim o potencial para viver a experiência daquela forma ou repetir papéis. Relacionam-se às experiências universais da humanidade: nascimento, passagem da infância para adolescência, da adolescência para a vida adulta, maternidade, paternidade, alteridade, espiritualidade, morte, etc. Uma mãe seja ela quem for, de qualquer raça ou meio sócio - cultural, tenderá a reagir a seu filho como mãe, correspondendo a um padrão afetivo e comportamental adequado a essa situação.
Os arquétipos, enquanto base dinâmico-estrutural da psique humana, se manifestam nas diversas esferas como: biológicas, psíquica, espiritual, histórica. No nível biológico, os arquétipos referem-se a padrões de comportamento observados tanto nos homens como nos animais: construção do ninho, dança ritualística das abelhas etc.
No nível espiritual o arquétipo manifesta-se através de imagens numinosas que podem surgir tanto na consciência individual (sonhos, fantasias, alucinações, expressões artísticas) como coletiva (religiões, mitos, lendas).
Tanto para os homens como para os animais estes padrões de comportamento significam fator limitante da liberdade, mas também fator que dá segurança. Abdicar delas representa medo e insegurança, mas é possível abandoná-los, pois o homem possui relativa liberdade na sua consciência. Quanto mais inconsciente o homem, mais ele segue os padrões coletivos. Portanto as formas arquétipicas expressas nas leis, nos mitos, nos costumes e lendas trazem modelos de comportamento básico para as diversa situações da vida. Quando este modelo não mais agradar, haverá conflito e o indivíduo terá que buscar respostas pessoais para seus dilemas. Ao emergir na consciência individual, o arquétipo, como resultado da compensação do inconsciente, indica novas possibilidades de adaptação da psique. Enquanto material inconsciente, o arquétipo constelado manifesta-se em atos compulsivos, autômatos onde a influência do “eu” é mínima e o indivíduo se vê possuído por um impulso irracional que o leva a uma determinada direção.
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Quando atrás do comportamento revela-se um padrão dinâmico, ou melhor, um mitologema que é representável por uma imagem, este mesmo impulso pode ser transferido para a esfera psíquica e ser vivido neste plano1
No caso do exemplo do arquétipo materno, na época da maternidade a mãe é levada a exercê-la na gestação, nutrição, proteção, acolhimento etc. Com o desenvolvimento do filho, e sua independência estes padrões de maternagem passam a existir mais a nível espiritual, quando gestação, nutrição, receptividade passam a qualidades psíquicas que independe da relação dela com seu filho.Vemos aqui um aspecto do arquétipo que é a bipolaridade: Material e espiritual, físico e psíquico, bem e mal, criativo e destrutivo etc: expressam uma mesma realidade, evocando uma experiência onde tempo e espaço não existem, havendo a necessidade de um outro modo de explicação. Surge então o conceito de “Sincronicidade”, que acontece em determinadas condições psíquicas. Sincronicidade diz respeito a uma espécie de coincidência entre dois ou mais eventos não necessariamente relacionados entre si, mas que encerram um sentido semelhante. A partir do conceito de sincronicidade, Jung esclarece a questão do paralelismo psicofísico, considerando o físico e o psíquico dois aspectos de uma mesma realidade, o indivíduo. Portanto a manifestação de um arquétipo pode ser percebida tanto a nível subjetivo (imagens arquetípicas, sintomas psíquicos) como a nível objetivo (situações de vida, relacionamento, doenças etc).
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Assim as manifestações físicas assumem uma dimensão psíquica, pois são embuídas de significado e as manifestações psíquicas recebem um corporalidade que concretiza o significado”.
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A psicoterapia analítica utiliza como instrumento de amplificação e análise dos processos psíquicos, entre outros, a mitologia, os contos de fada, lendas etc
Buscando entender o processo vivido pela paciente com Lúpus, à luz dessa linha de conhecimento psicológico, recorremos à mitologia e ao estudo das Deusas, enquanto arquétipos. A noção de que Deusas, como Ártemis, Atena, Afrodite, Hera, Perséfone, Héstia, Deméter etc simbolizam características encontradas individualmente nas mulheres é cada vez mais aceita.Identificando tais características abre-se a possibilidade de autoconhecimento e traz luz ao campo da consciência.
Nesse estudo vamos nos ater à Deusa Ereshkigal, Deusa Suméria, rainha dos mortos e dos mundos subterrâneos. Seu nome significa ”Senhora da Grande habitação Inferior”, entretanto antes de ser relegada a “kur” (significa lugar estrangeiro fora da consciência, sombrio no sentido de ausência de luz, de conhecimento, mundo inferior ou inconsciente), morava na parte superior da Terra e era a Deusa dos grãos, caracterizava o crescimento dos cereais e a fertilidade e chamava-se Ninlil, sendo esposa de Enlil, um deus do Sol de segunda ordem. Foi violentada pelo seu marido diversas vezes, que para isto utilizou vários disfarces, mas acabou sendo punido e mandado para o mundo inferior. A Deusa entretanto amava muito seu marido e seguiu-o tornando-se Ereshkigal, cuja dor lhe conferiu um “olhar de morte”.
O reino da morte é mitologicamente referido como o reino “de baixo”, subterrâneo ou metaforicamente falando, o reino de tudo que vive na sombra de nossa consciência, tudo que não é aceito, que não é valorizado, que não é consciente. Quando estamos deprimidos estamos nesta “descida”, ao reino de Hades.( Deus dos mundos inferiores).
Semelhante á violentação sofrida por Perséfone, difere por mostrar “a potência primitiva e paradoxal de forma mais crua”
3, havendo em Ereshkigal o poder, o terror, o olhar terrível congelando a vida, a ligação íntima com o não-se e o destino. A violentação da Deusa estabelece o domínio do masculino, do ânimus sobre a vida, relegando o feminino ao mundo subterrâneo.
Arquetípicamente falando, Ereshkigal é a Deusa que se torna furiosa e destrutiva se for desrespeitada, mas ela não constrói um sistema de ataque nem seus próprios limites. As forças de Ereshkigal são sentidas como
“depressão, desamparo, tomada por uma energia destrutiva-transformadora, que desintegra e devora o senso individual de capacidade e valor” “sente-se presa numa estase sem fim, incapaz de mover-se, sentindo o desespero pesado e o vazio de quem é violentada pelo animus ”
4. É irracional, primitiva, totalmente indiferente à sorte, constantemente atormentada por sintomas somáticos, distúrbios em órgãos e processos celulares degenerativos. É a energia, agora conhecida pelo estudo dos buracos negros, da desintegração dos elementos, da autodestruição, do câncer, da degeneração cerebral. Nos domínios de Ereshkigal há dor, paralisação, impotência diante do afeto entorpecido, não canalizado, não expresso e... nenhuma saída.
Quando a mulher é reduzida à dor e depressão, muitas vezes ocasionadas por esse desrespeito, ou quando se vê negligenciada em algumas de suas dimensões existenciais, pode-se dizer que ela está sobre o domínio de Ereshkigal, mas esse contato pode trazer também a possibilidade de enraizá-la possibilitando-a confrontar-se com o masculino e o patriarcado de igual para igual, ou a expressar-se, permitindo-se existir, conectada com sua própria fonte interior. Sem ajuda terapêutica é difícil distanciar-se e enxergar padrões de comportamento arraigados, e culturalmente reforçados por muitas décadas, como sucedeu com a condição inferior da mulher.
Entrevistando as pacientes com lúpus, muitas vezes percebi a presença dessa dor, nas suas experiências de violação conscientemente relatadas, (traição, abandono, maus tratos, desvalorização etc; tanto na relação com o parceiro como na relação anterior com os pais), e aquelas experiências que não foram percebidas como danosas, mas que deixaram seus efeitos. Uma ferida que vai além de uma situação relacionada ao “estresse pós-traumático”, como são normalmente referidas as patologias psicossomáticas, e sim a algo mais específico, como Ereskigal, da ordem do afetivo, do “coração”, que atinge de alguma forma a sua condição de mulher. Observações estas que carecem de maior aprofundamento.
Nessa situação a depressão pode ser considerada uma dádiva, no momento que ela leva o paciente a olhar para dentro, a este submundo, a uma oportunidade de subjetivação, que lhe mostrará uma saída e lhe trará um sentido novo à existência.
Cabe ao psicólogo/psicoterapeuta acompanhar esse paciente deprimido em sua “descida”, em suas imagens de fracasso, tristeza e desejo de morte.
“Necessitamos experimentar com ele o sabor da impotência e da desesperança para podermos juntos compreender e redimir estes fantasmas”.5
Estaremos preparados para acompanhar este paciente nesta descida? Vermos-nos refletidos nele e ainda assim oferecer-lhe continência? Suportar nossa própria depressão? Para tratar a depressão provavelmente será necessário tratar a alma (psique) que desce e para isto o caminho é aprender a descer com ela, para juntos fazermos o caminho de volta, o que implica estarmos diante destas imagens de fracasso, estagnação e morte, características do processo depressivo, contê-las em nossa própria ferida, sustentá-las e oferecer continência capaz de permitir elaboração e cura. Dessa jornada ambos, paciente e terapeuta sairão transformados, por mais que já tenha caminhado o terapeuta, o encontro analítico é sempre único, onde a perspectiva do novo estará sempre presente.
Referências
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1 Jung, citado por Ribeiro, Maria Raymunda- Prevenção e saúde para o hipertenso, Jung&corpo,AnoII, nº2,2002.
2–Sant’anna, P.A, Um Estudo dos arquétipos dos sonhos de Portadores de HIV.SP,1996,pg 24- Dissertação de Mestrado-Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo.
3Perera, Sylvia B. – Caminho para a Iniciação Feminina,SP, Ed Paulus,1985,pg 38
4 idem, pg 44.
5Anjos, Hermenegildo O - Depressão e Cultura, Uma abordagem arquetípica, disponível em http://www.cefacbahia.org.br/artigos/julho 05.doc