
Pragmática da Comunicação Humana
P.Watzlawick, Janet H. Beavin, Don D. Jackson, Cultrix / São Paulo 1981
Disserta sobre a Teoria Pragmática da Comunicação Humana que se ocupa com as dificuldades de comunicação...
Livros surgem, à mãos cheias, e somem sem deixar rastros. Poucos têm o privilégio de se transformar em referenciais duradouros de uma idéia, de uma teoria, de uma prática.
Pragmática da Comunicação Humana é um desses livros raros, clássicos, referenciais, onipresente em trabalhos científicos centrados nas patologias e nos paradoxos da comunicação humana.
Disserta sobre a Teoria Pragmática da Comunicação Humana que se ocupa com as dificuldades de comunicação – padrões, patologias e paradoxos da interação - e com os efeitos pragmáticos das enunciações efetivamente ditas, sobre os interlocutores.
A sinopse pretende despertar o interesse do leitor para leitura, análise e reflexão dessa verdadeira bíblia da teoria pragmática da comunicação humana.
José Pinto de Queiroz Filho
CAPÍTULOS
Cap.1 - O quadro de referência.
Cap.2 - Alguns axiomas conjeturais da comunicação.
Cap.3 - Comunicação patológica.
Cap.4 - A organização da interação humana.
Cap.5 - Uma abordagem comunicacional da peça "Quem tem medo de Virginia Woolf?"
Cap.6 - Comunicação paradoxal.
Cap.7 - Paradoxo em psicoterapia.
Epílogo - O existencialismo e a teoria de comunicação.
Introdução
Para a teoria pragmática da comunicação humana a linguagem não é simples suporte da comunicação e sim uma forma de ação, agente construtor e modificador das relações entre interlocutores. Diferencia troca de energia e troca de informações com o exemplo:
“Se o pé de um homem bater, enquanto passeia, numa pedra, a energia é transferida do pé para a pedra; esta será deslocada e, finalmente, voltará a parar numa posição que é totalmente determinada por fatores tais como o montante da energia transferida, o formato e o peso da pedra, a natureza da superfície em que ela rola. Se, por outro lado, um homem der um pontapé num cão, em vez de na pedra, o animal poderá saltar e mordê-lo. Nesse caso, a relação entre o pontapé e a mordida é de uma ordem diferente. É óbvio que o cão recebe a energia para sua reação de seu próprio metabolismo e não do pontapé. Portanto o que é transferido não é energia mas informação. Por outras palavras, o pontapé é um item de comportamento que comunica algo ao cão e este reage à comunicação com um outro item de comportamento/comunicação” (WATZLAWICK, 1981, p. 25/26).
Isto sugere que o estudo da comunicação humana pode ser subdividido nas mesmas três áreas, estabelecidas por Morris e adotadas por Carnap, para estudar a semiótica - a teoria geral de sinais e linguagem: sintática (abrange os problemas de transmissão de informação, domínio primordial do teórico da informação), semântica (refere-se aos significados das mensagens) e pragmática (lida com a comunicação que afeta o comportamento). Embora seja possível uma nítida separação conceitual das três áreas, na prática, são interdependentes.
Cap.1- O quadro de referência.
Corroborando o postulado de Bateson, de que “nunca poderemos conhecer as ‘coisas’ deste mundo, isoladamente. Todo conhecimento se insere num contexto”, o primeiro quadro de referência da pragmática fundamenta-se no fato de que “um fenômeno permanece inexplicável, enquanto o âmbito da observação não for suficientemente amplo para incluir o contexto em que ocorre” (WATZLAWICK, 1981).
Os autores exemplificam contando a história clínica de um homem que desmaia e é levado para o hospital, inconsciente, com a pressão sanguínea extremamente baixa e o quadro clínico sugestivo de intoxicação aguda por drogas. Mas não se descobrem sinais de resíduos de drogas no organismo. O seu diagnóstico permanece inexplicável até que ele desperta e informa ser um engenheiro de minas que acabara de retornar dos Andes, após dois anos de trabalho numa mina de cobre situada numa altitude de 15 mil pés. Comprova-se, então, que não é uma vítima de intoxicação por drogas, mas sim de um problema de adaptação de um organismo clinicamente sadio, a um meio drasticamente alterado. A ampliação do contexto além da ecologia do meio onde se encontra, no aqui/agora, solucionou a questão.
A importância essencial do contexto na análise da comunicação humana, deve sempre ser enfatizada.
Uma relação é estabelecida, testada num campo tão vasto quanto uma dada contingência permite e, daí, obtém-se uma abstração que sustentamos.
É idêntico ao conceito matemático de função. Assim, não são as "coisas", mas as funções que constituem a essência de nossas percepções; não são grandezas isoladas, mas "sinais" representando uma ligação, uma infinidade de posições de caráter semelhante. Dessa forma, a consciência do homem é função das relações em que ele se encontra envolvido.
A questão principal é que os sintomas interpessoais, grupos de estranhos, pares conjugais, famílias, relações psicoterapêuticas e até internacionais, podem ser entendidos como circuitos de retroalimentação, dado que o comportamento de cada pessoa afeta e é afetado pelo comportamento de cada uma das outras pessoas. A admissão (input) de parte do produto de um sistema, num determinado sistema, pode ser ampliada e redundar em mudança ou pode ser neutralizado e manter a estabilidade do sistema (homeostase, ou estado constante).
As manifestações de vida subordinam-se às estabilidade e mudança, significando que os mecanismos de retroalimentação positiva e negativa devem ocorrer em formas específicas de interdependência ou complementaridade.
Cap.2- Axiomas da Comunicação
Axioma 1 - A impossibilidade de não comunicar.
Um indivíduo não pode não se comportar. Como todo comportamento, numa situação interacional, tem valor de mensagem, ou seja, é comunicação, o indivíduo também não pode não se comunicar.
Axioma 2 - Conteúdo e níveis de relação da comunicação.
Qualquer comunicação contém um informe e um compromisso que define a relação. Quer dizer, a comunicação não só transmite informação, mas, ao mesmo tempo, impõe um comportamento. Os eventos foram batizados, por Bateson, como "relato" e "ordem". O relato transmite os "dados" da comunicação, a "ordem" sinaliza de que forma essa comunicação deve ser entendida pelos interlocutores.
Axioma 3 - Pontuação da seqüência de eventos.
Este axioma diz respeito a dinâmica da interação, na troca de mensagens entre comunicantes. Para um observador externo, uma interação comunicativa é percebida como uma seqüência ininterrupta de trocas. Os interlocutores introduzem, sempre, uma pontuação na seqüência dos eventos, que ajuda a organizar os comportamentos. A natureza de uma relação resulta da pontuação das seqüências interacionais entre os comunicantes.
A alteração da pontuação conduz a mudanças na seqüência, gerando dificuldades e lutas em torno das relações. Assim, as divergências entre cônjuges podem produzir dificuldades para metacomunicar, gerando uma interação oscilatória: sim - não - não - sim. Tomemos, como exemplo, um problema de casal em que o marido reage com retraimento passivo, às censuras críticas e irritantes da mulher. Ele dirá que seu retraimento é por causa das implicâncias da esposa, enquanto esta, informará que a critica é devido a sua passividade. Estabelece-se a seguinte seqüência: - Marido: "Eu me retraio porque você implica. – Mulher: ”Eu implico porque você se retrai". Acusam-se, mutuamente, mas como não se conseguem metacomunicar, ignoram que ambos reforçam, com mensagens complementares, uma pontuação de eventos ininterrupta e interdependente.
Axioma 4 - Comunicação digital e analógica.
Os seres humanos comunicam-se digital e analogicamente. O homem é o único ser vivo que utiliza, em toda sua potencialidade, os modos analógico e digital de comunicação.
O material da mensagem digital é de um grau mais elevado de complexidade, versatilidade e abstração do que o material analógico. A linguagem digital tem uma sintaxe lógica e é, portanto, eminentemente operativa na comunicação em nível de conteúdo. Porém, apesar de complexa e poderosa, a sintaxe lógica é carente de semântica adequada no campo das relações.
A comunicação analógica é toda comunicação não verbal -, postura, gestos, expressão facial, inflexão da voz, seqüência, ritmo, cadencia das palavras e qualquer outra expressão averbal. Possui semântica (significado), mas não tem uma sintaxe adequada para a definição não ambígua das relações.
Axioma 5 - Interação simétrica e complementar.
É o axioma que mais se aproxima do conceito matemático de função, ou seja, posições variáveis com infinidade de valores possíveis, cujo significado não é absoluto, mas se manifesta somente em relação de reciprocidade.
As interações simétricas e complementares são relações baseadas nas igualdades ou nas diferenças.
Na interação simétrica, os parceiros tendem a refletir o comportamento um do outro, como: fraquezas, maldades, força, bondade, características de igualdade ou minimização das diferenças. Fundamenta-se na maximização das semelhanças, facilitando enfrentamentos contínuos, persistentes. Exs: general – general, irmão – irmão, professor - professor, etc.
Na interação complementar, o comportamento de um parceiro complementa o do outro. Baseia-se na maximização das diferenças. Um parceiro ocupa a posição superior, primária, e o outro a correspondente posição inferior, secundária. Essa forma de relação é característico de pares, dos tipos: general – soldado, pais - filhos, médico - cliente, terapeuta – cliente, agressor - vítima.
Em caso de parceiros amorosos, um não impõe ao outro a relação complementar, mas comportam-se de maneira que pressupõe o comportamento do outro e, ao mesmo tempo, fornece razão para tal comportamento. As respectivas definições de relação encaixam-se mutuamente.
Cap.3- Comunicação Patológica.
O sintoma como comunicação.
A teoria da comunicação concebe os sintomas como mensagens verbais e averbais: - não sou eu que quer (ou não quer) fazer isto; é algo fora do meu controle; são os meus nervos, a minha ansiedade, a minha doença, a minha vida deficiente, o álcool, o modo como fui criado, a minha mulher, meu marido, meu trabalho, as outras pessoas.
Axiomas, grupo1
- É impossível não comunicar;
- Rejeição da comunicação.
- Aceitação da comunicação -
- Desqualificação da comunicação - as desqualificações abrangem as declarações contraditórias, as incoerências, as mudanças bruscas de assunto, as tangencializações, as frases incompletas, as interpretações errôneas, maneirismos de fala, interpretações literais de metáforas.
Axiomas, grupo 2
- A estrutura dos níveis de comunicação.
- Conteúdo e Relação.
O fenômeno em desacordo fornece referências para o estudo dos distúrbios de comunicação devidos à confusão entre conteúdo e relação. O desacordo pode surgir no nível de conteúdo ou no de relação, uma forma depende da outra. O desacordo trás à tona disputas de poder e de status que se não forem explicitadas e metacomunicadas criarão conflitos.
Ex: marido, sozinho em casa, recebe telefonema de amigo informando que deverá chegar a sua cidade; convida-o para hospedar-se em sua casa, acreditando que sua mulher teria feito o mesmo. Ao chegar, a esposa não aceita que o marido tenha feito o convite na sua ausência, e sem consultá-la, embora concorde com o fato em si. Numa sessão de casal, ficam intrigados por concordarem que convidar o amigo era a coisa mais apropriada, na ocasião.
Neste caso, detectamos dois pontos envolvidos na disputa: o curso de uma ação numa questão prática, isto é, o convite, considerado apropriado pelo casal-, que pode ser comunicado digitalmente; e a questão do direito de tomar a iniciativa sem consultar o outro, que só poderá ser resolvida trabalhando-se as relações do casal. O desacordo do casal situa-se, portanto, no nível, analógico, de relação (metacomunicacional) e jamais poderá ser resolvido no nível, digital, de conteúdo.
Confirmação, rejeição, desconfirmação - Habitualmente, na sociedade humana, em todos os níveis, as pessoas buscam se confirmar, entre si, para validar seu próprio EU. Além de se confirmarem também se rejeitam e se desconfirmam. São outras respostas possíveis próprias da interação humana.
A rejeição, embora penosa, pressupõe uma forma de confirmação negativa. Certas formas de rejeição podem até ser positivas.
A desconfirmação é estratégia comunicacional que orbita na área do psicopatológico. O individuo desinteressa-se da verdade ou falsidade do EU de seu interlocutor, negando simplesmente a realidade de sua existência. Equivale a mensagem: "você não existe". Encontra-se nos vínculos da dinâmica familiar de pacientes esquizofrênicos.
Axioma 3 - Pontuação da seqüência de eventos.
As discrepâncias da seqüência de eventos ocorrem em todos aqueles casos em que, pelo menos um dos comunicantes não possui a mesma soma de informações do outro, e não sabe.
Por ex: Ivo telefona para Cláudia, ela não está; ele deixa um recado para que responda. Depois de algum tempo, Ivo não recebe o retorno esperado e conclui que ela o ignorou. Cláudia sente-se ofendida porque Ivo não ligou. Nesse caso, a hostilidade silenciosa pode durar para sempre, a menos que os interlocutores tenham a oportunidade de se metacomunicarem.
O que se observa em todos os casos de comunicação patológica, é que existe um círculo vicioso que não pode ser interrompido a menos que (e até que) os sujeitos estejam aptos a metacomunicarem.
A pontuação discrepante conduz a diferentes idéias de realidade, incluindo a natureza das relações nos conflitos interpessoais.
Observamos que o comportamento interpessoal mostra um tipo de redundância que tem efeito complementar nos outros, forçando-os a adotar certas atitudes específicas. O que há de típico na seqüência, tornando-a um problema de pontuação, é que o indivíduo em questão só se concebe reagindo a essas atitudes e não as provocando.
Axioma 4 - Erros na tradução entre material analógico e digital.
O erro na tradução entre os códigos digital e analógico, surge da pressuposição do interlocutor de que o outro possui o código que tem a mesma função analógica.
Ex: no casamento, cada um vem com uma bagagem analógica e mantém o seu comportamento o que vira guerra na família. O adequado é formar um padrão analógico específico daquele casal e da família. Ex: Natal, padrão analógico, não significa amor, união, paz, nascimento de Jesus para algumas famílias.
Axioma 5 - Patologia da interação simétrica e complementar.
Em comunicação tanto a simetria quanto a complementaridade não são intrinsecamente "boas ou más", "normais ou anormais", etc. Ambas tem funções importantes sobre o que se conhece sobre relações saudáveis. Podemos concluir que ambas (simetria e complementaridade) devem estar presentes tanto em mutuas alterações ou operações em diversas áreas.
Numa relação simétrica há o perigo da competitividade - disputas e brigas entre indivíduos e nações; é o desequilíbrio na escalada simétrica.
A patologia na interação simétrica caracteriza-se por uma guerra mais ou menos aberta. Nos conflitos maritais, é fácil observar como os cônjuges passam por um padrão de escalada de frustração, até que param, em virtude de puras exaustões físicas e emocionais, mantendo uma trégua instável até estarem suficientemente refeitos para o ataque seguinte.
Numa relação simétrica saudável, os parceiros são capazes de se aceitarem mutuamente, tais quais são, o que leva ao respeito recíproco. Equivale à confirmação realista e mutua de seus respectivos EUS.
Quando uma relação simétrica se desintegra, observa-se habitualmente a rejeição, e não a desconfirmação do Eu do outro. Nas patologias das relações complementares, há mais desconfirmação do que rejeição.
Cap.4 - A organização da interação humana.
A interação humana pode ser considerada como um sistema e a Teoria Geral dos Sistemas (mecânicos, biológicos, econômicos) propicia uma compreensão íntima da natureza dos sistemas interacionais. Admitindo-se que existe sempre alguma espécie de relação, por mais espúria que seja, entre quaisquer objetos... os objetos dos sistemas interacionais humanos, são melhor descritos como pessoas-se comunicando-com-outras pessoas. Os objetos desses sistemas são indivíduos humanos e os atributos pelos quais são identificados comportamentos comunicativos, em contraste, digamos, com atributos intrapsíquicos. Nesse caso, o que é importante não é o conteúdo da comunicação, per se, mas o seu aspecto relacional.
As propriedades dos sistemas abertos.
O fato de que “os sistemas orgânicos são abertos, significando que eles permutam materiais, energias ou informação com seus meios”., emancipou as ciências dedicadas aos fenômenos da vida das algemas de um modelo teórico baseado, essencialmente, na física e química clássicas; um modelo de sistemas exclusivamente fechados.
Cita-se, a seguir, algumas das propriedades dos sistemas abertos que se aplicam a interação humana:
Globalidade: todo e qualquer parte de um sistema está relacionado de tal modo com as demais partes que uma mudança numa delas provocará uma mudança em todas as partes e no sistema total, isto é, um sistema comporta-se não como um simples conjunto de elementos independentes, mas como um todo coeso e inseparável.
Retroalimentação: (feed back) com o advento da cibernética e a descoberta da retroalimentação viu-se que a relação circular é altamente complexa e diferente, mas não menos científica do que as mais simples e ortodoxas noções causais. Retroalimentação e circularidade constituem o adequado modelo causal para uma teoria de sistemas interacionais.
Equifinalidade: este princípio ensina que os mesmos resultados podem brotar de diferentes origens, porque quem os define é a natureza da estrutura (organização) dos sistemas.
Sistemas interacionais em desenvolvimento.
Os sistemas interacionais são considerados o foco natural para o estudo do impacto pragmático, a longo prazo, dos fenômenos comunicacionais.
A família como sistema.
A interação humana descrita como um sistema de comunicação, caracterizado pelas propriedades dos sistemas gerais, relações sistema-subsistema, globalidade, retroalimentação, equifinalidade, leva a uma definição de família como um sistema governado por regras.
A teoria das regras de família ajusta-se a definição inicial de um sistema estável, no qual, algumas de suas variáveis tendem a permanecer dentro de limites definidos; de fato, isto sugere uma análise mais formal da família como sistema. Tal modelo de interação familiar foi proposto por Jackson quando apresentou o conceito de homeostase familiar que opera para restabelecer o delicado equilíbrio do sistema perturbado.
Segue-se, algumas propriedades do sistema aberto, aplicados à família:
Globalidade.
O comportamento de todo indivíduo, dentro da família está relacionado com (e depende do) comportamento de todos os outros. Todo comportamento é comunicação que influencia e é influenciado por outros. A mudança para melhor ou pior no doente identificado tem, usualmente, um efeito sobre os outros membros da família.
Não-somatividade.
A análise de uma família não é a soma das análises dos seus membros individuais. Existem características do sistema, isto é, padrões de interação que transcendem as qualidades dos membros individuais.
Retroalimentação e homeostase.
Algumas famílias podem absorver grandes reveses e convertê-los até em motivos de reagrupamento e solidariedade; outras parecem incapazes de suportar a crise mais insignificante.
Cap.5- O por quê de uma abordagem comunicacional da peça "Quem tem medo de Virginia Woolf?".
A adoção de um sistema fictício, em vez de dados clínicos reais (como nos capítulos prévios)... decorre de uma simples questão de volume. Por exemplo: a transcrição de horas e horas de entrevistas familiares resultaria proibitiva por seu volume... A seleção e a síntese de dados tampouco oferece uma solução, pois estariam distorcidos... Optou-se pela peça por satisfazer ambos os critérios.
Cap.6- Comunicação paradoxal.
O paradoxo é definido como uma contradição lógica que resulta de uma dedução coerente de premissas. São citados três tipos de paradoxos: lógico-matemático, semântico e pragmático. O último é o de maior interesse, em virtude de suas implicações para o comportamento humano.
Distinguem-se paradoxos pragmáticos da simples contradição, porque é possível encontrar solução para a última, mas não para a primeira. As duas espécies de paradoxos pragmáticos são as injunções paradoxais (duplo vínculo) e as previsões paradoxais.
Cap.7- O paradoxo em psicoterapia.
O pedido do cliente é sempre paradoxal, e este padrão tem a impossibilidade de gerar qualquer mudança de dentro para fora. Uma mudança ocorre somente no caso de se sair do padrão. Por ex: marido austero e moralista se orgulha de seu estilo ascético. A esposa reluta em parar de tomar um aperitivo antes do jantar. Ao marido, abstêmio, causa repulsa e tem sido o tema de intermináveis discussões desde o início de vida matrimonial. Após dois anos o marido em um acesso de cólera diz à esposa "se você não abandonar este vício, eu arranjarei outra". Tal declaração não a impediu de continuar bebendo e, alguns meses depois, o marido decidiu permitir que continuasse com o hábito, a fim de ter paz em casa. Tal decisão desencadeou ciúmes na esposa, com o seguinte fundamento lógico: ele é inteiramente digno de confiança, portanto, deve estar cumprindo a sua ameaça de ser infiel, isto é, indigno de confiança. Por outro lado o marido está igualmente colhido na teia de sua previsão paradoxal. Não pode tranqüilizá-la convincentemente, pois foi uma ameaça impulsiva, num momento de cólera, que não deve ser levado a sério. Ambos se apercebem que estão presos numa armadilha que eles próprios criaram, mas não sabem como sair dela. Neste caso o casal ficou envolvido num jogo sem fim, cuja premissa básica era a afirmação, por parte do marido, de ter idoneidade absoluta, e a aceitação completa, por parte da mulher, dessa auto-afirmação. Neste jogo de relação surgiu um paradoxo irreversível, no momento em que o marido prometeu ser infiel. A natureza irreversível da situação reside no fato de que, como qualquer outro jogo sem fim, este é governado por regras, mas carece de metaregras para modificar as regras.
Pode-se dizer que uma intervenção terapêutica deve consistir na formação de um novo e ampliado sistema (marido, esposa e terapeuta), no qual é possível ver de fora o antigo sistema (a díade conjugal); o terapeuta também pode utilizar o poder do paradoxo para produzir melhoras, impondo, a esse novo jogo de relações, metaregras que considere apropriadas aos objetivos terapêuticos.
Cap.8- O existencialismo e a teoria de comunicação humana: Uma Perspectiva.
Os autores refletem sobre quais princípios da teoria pragmática da comunicação humana pode ser útil quando o enfoque se desloca do interpessoal para o existencial e, em tal caso, de que maneira.