DOENÇA PARENQUIMATOSA CRÔNICA DO FÍGADO: ASPECTOS CLÍNICO-EPIDEMIOLÓGICOS EM UM CENTRO DE REFERÊNCIA DA BAHIA

Autor(es): Cícero Rodrigo Medeiros Alves; Orientadora do Projeto: Profª Drª Nádia Regina Caldas Ribeiro

Introdução: A Doença Parenquimatosa Crônica do Fígado (DPCF) pode ser secundária a um vasto espectro de etiologias que, por distintos mecanismos fisiopatológicos, levam a um estado permanente de lesão ao fígado, com subsequente reestruturação anormal do parênquima hepático. Este processo se desenvolve de forma crônica e insidiosa, levando um longo período até que a sintomatologia e complicações da mesma se manifestem clinicamente. Tais consequências tardias da hepatopatia crônica permanecem ainda como uma causa de uma alta morbi-mortalidade e ônus às redes de Saúde em todo o mundo. As etiologias subjacentes à DPCF apresentam significativas variâncias epidemiológicas nas distintas regiões demográficas globais. Não obstante os estudos previamente realizados globalmente e em nosso país, ainda existe uma grande lacuna do saber quanto à incidência e prevalência da DPCF e suas principais entidades de base no Brasil e especificamente na Bahia Justificativa: O local onde se pretende realizar o presente estudo é um hospital público de referência para toda a Bahia na área de gastroenterologia e hepatologia, além de diversas outras especialidades médicas. Dessa forma, um estudo acerca da distribuição das diversas etiologias de DPCF dentre os pacientes acompanhados no ambulatório deste hospital vem a refinar os dados da literatura local e nacional quanto a esta patologia e os resultados podem vir a ser um reflexo do impacto epidemiológico das mesmas dentre a população total, o que nos traz a idéia de interpretar os dados obtidos dentro de um contexto amplo onde atuem como diretrizes no desenvolvimento de campanhas de prevenção primárias, secundárias e terciárias focadas nos agentes etiológicos de maior importância identificados. Objetivos: Determinar qual a distribuição das etiologias subjacentes à DPCF, assim como o perfil clínico-epidemiológico dos pacientes com tal entidade acompanhados em um centro de referência da Bahia. Metodologia: Este foi um estudo de modelo descritivo quantitativo com amostra de conveniência, realizado no período de novembro de 2010 até fevereiro de 2011, que consistiu na revisão de prontuários dos pacientes acompanhados no ambulatório de hepatologia de um hospital público de referência, atendidos a partir de 2004 até a data de conclusão do estudo. Os dados foram obtidos através de uma Ficha de Revisão de Prontuários, a qual visava obter os dados clínicos e epidemiológicos de pacientes atendidos no serviço com diagnóstico confirmado de hepatopatia crônica, conforme os atuais critérios diagnósticos para cada etiologia. Foram excluídos do estudo aqueles pacientes sem a investigação diagnóstica completa, diagnóstico dúbil ou pacientes acompanhados por outras hepatopatias. A análise estatística foi realizada por modelo descritivo quantitativo, através do software SPPS, para determinação da distribuição das frequência das variáveis. Este projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, vinculado ao Comitê Nacional de Ética em Pesquisa do Ministério da Saúde do Brasil, quanto aos seus aspectos éticos e legais, sob o protocolo 196/10, sendo aprovado em Dezembro de 2010. Resultados: Dos 613 pacientes acompanhados no serviço, foram incluídos no estudo 359 prontuários. Destes, 210 (58,5%) foram do sexo masculino e 149 (41,5%) do sexo feminino. Foi observado que, em ordem decrescente de frequência, a Hepatite Viral B Crônica (HVBC), seguida pela Doença Alcoólica do Fígado (DAF), Hepatite Viral C Crônica (HVCC) e Esteato-Hepatite Não-Alcoólica (EHNA) foram as quatro etiologias de maior representação. Quando somadas, estas quatro entidades representaram 90,5% dos 359 pacientes incluídos no estudo. As médias de idade dos pacientes com ambas Hepatites Virais foi de 45 ± 17 e 50,2 ± 12,6 para HVBC e HVCC, respectivamente. A idade média dos pacientes do sexo masculino (51 ± 9 anos) com DAF foi menor em relação ao sexo feminino (55 ± 14). Ainda quanto ao gênero, o sexo masculino foi preponderante em frequência para as 3 primeiras etiologias, enquanto apenas na EHNA houve predomínio do sexo feminino. Também nos pacientes com EHNA foi observado a presença em todos os pacientes de ao menos um - ou perfazendo todo o cortejo sindrômico - dos fatores componentes da Síndrome Metabólica. As demais etiologias analisadas apresentaram menor participação, porém a Hepatite Auto-Imune e DPCF Criptogênica ainda mostraram-se de grande relevância dentro da população estudada. Outro relevante fato obervado no estudo foi que, apesar da região Metropolitana de Salvador ter apresentado a maior proporção dos casos acompanhados, foi observado que, apesar deste fato, a distribuição entre tais etiologias não se modificou independetemente da Mesorregião de procedência, o que sugere um perfil semelhante para todo o Estado da Bahia das etiologias subjacentes a DPCF. Discussão: Este estudo tende a confirmar que na Bahia, assim como referido na Literatura em estudos epidemiológicos globais, as quatro etiologias referidas (HVBC, HBCC, DAF e EHNA) são as protagonistas no âmbito da DPCF. Convém destacar que as mesmas são consideradas potencialmente evitáveis. É de fundamental importância notar que para todas as etiologias houve uma importante concordância em relação à Literatura quanto ao perfil clínico-epidemiológico dos pacientes. A infecção adquirida na idade adulta das Hepatites Virais Crônicas para ambos os sexos é compatível com o padrão de infecção tardia observado em países Ocidentais. Foi sugerido, a partir dos dados obtidos, que os homens sejam mais expostos aos fatores de risco para as Hepatites Virais Crônicas B e C, assim como consumam uma quantidade significativamente maior de álcool em relação às mulheres. Quanto à DAF, esta suposição faz referência a uma um ponto relevante identificado que, apesar de ser relatado na Literatura que as mulheres desenvolvam tal entidade precocemente mesmo quando expostas a doses menores de álcool, foi observado uma idade média menor entre os homens, o que parece demonstrar que os homens excedam o consumo desta substância a um nível capaz de superar o maior risco relativo da mulheres. Dessa forma, o sexo masculino deve tornar-se um importante público alvo para medidas de saúde pública que visem a redução das hepatopatias crônicas, em especial as Hepatites Virais Crônicas e Doença Alcoólica do Fígado. A grande relevância dos fatores componentes da Síndrome Metabólica se fez presente universalemnte entre os pacientes com tal entidade e mostra, assim como já relatado serem importantes fatores de risco para a mesma, que alterações metabólicas podem ter grande repercussão sobre a função hepática. Como o presente estudo foi realizado em uma população fechada, não podemos inferir a real incidência e prevalência de cada etiologia na população aberta, entretanto, é possível extrapolarmos os resultados encontrados aqui, especialmente quanto observamos a importante concordância em relação ao conhecimento atual e ao considerarmos a casuística observada no presente estudo como possívelmente um reflexo da própria população a nível aberto. Apesar disso, ainda se faz necessário que os dados encontrados aqui sejam confirmados por estudos com maior poder epidemiológico. Conclusão: Este projeto cumpriu os objetivos estabelecidos e tornou-se de importância significativa pois, apesar de ter sido realizado em uma população fechada em um centro de referência, foi observado um alto grau de concordância dos dados observados aqui em relação a Literatura global, o que pode ter tornado mais clara a relevância da DPCF e suas respectivas etiologias em nosso meio. Mostrou-se a grande relevância das Hepatites Virais Crônicas B e C, da Doença Alcoólica do Fígado e da Esteato-Hepatite Não-Alcoólica na população acompanhada no estudo e, como discutido previamente, é possível a extrapolação destes resultados para a população aberta, ainda a serem confirmados. Estas quatro etiologias perfizeram 90,5% da casuística do estudo, porém é podemos notar que todas são potencialmente preveníveis. Desta forma, os dados fornecem importante embasamento científico para estimular medidas preventivas - as quais são possíveis e necessárias - de saúde públicas em níveis primários, secundários e terciários de atuação, direcionadas àquelas etiologias de maior relevância e ao respectivo perfil clínico-epidemiológico identificado para as mesmas a fim de reduzir a incidência, prevalência, ônus e mortalidade da DPCF em nosso meio.

Palavras-chave: Doença Parenquimatosa Crônica do Fígado, Saúde Pública, Epidemiologia, Cirrose Hepática, Hepatites Virais Crônicas, Hepatite Viral B Crônica, Hepatite Viral C Crônica, Doença Alcoólica do Fígado, Esteato-Hepatite Não-Alcoólica, Hepatite Auto-Imune

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Anais da MCC., Salvador, v.1, n.3, setembro. 2012, ISSN

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