PREVALÊNCIA DE DISTÚRBIOS MICCIONAIS EM PORTADORES DE HTLV-1, ANÁLISE URODINÂMICA E CARGA PROVIRAL.

Autor(es): Hugo Fabiano Fernandes de Novaes; Marcelo Tomás Carvalho; Breno Laert Mendes Fernandes de Araújo; Ney Cristian Amaral Boa Sorte; Viviana Nilla Olavarria Gallazzi; Bernardo Galvão Castro Filho

O vírus linfotrópico para células T humanas (HTLV) é um vírus da família Retroviridae e atinge de 15 a 25 milhões de pessoas no mundo (de Thé & Kazanji, 1996). No Brasil, Salvador (BA) é a cidade com mais alta prevalência de infecção pelo HTLV-1 entre os doadores de sangue (1,35%) (Galvão-Castro et al., 1997). Algumas doenças estão bem relacionadas ao vírus como paraparesia espástica tropical/mielopatia associada ao HTLV-1 (TSP/HAM), leucemia de células T do adulto (ATL) e uveíte associada ao HTLV-1 (Gessain et al., 1985; Hinuma et al., 1981; Mochizuki et al., 1992; Osame et al., 1986). Os sintomas miccionais estão presentes em torno de 90% dos casos de TSP/HAM, tendo um início insidioso e podendo ser a manifestação mais precoce da afecção (De Castro-Costa, 1996; Namima et al., 1990; Hattori et al., 1994). Estes sintomas, é importante salientar, são inespecíficos, e podem ocorrer em inúmeras outras situações clínicas, tanto neurológicas como obstrutivas ou inflamatórias. As infecções urinárias de repetição, a litíase do trato urinário e quadros mais graves, como pielonefrite crônica ou de insuficiência renal, constituem conseqüências comuns das alterações urológicas (Ribas, 2002). A intensidade e a qualidade dos sintomas vão variar com a maneira de apresentação da doença, com a duração dos mesmos, com o surgimento de complicações e com a instituição de uma terapia adequada (Saito,1991). Para que se possa ter uma compreensão mais correta e correlata, bem como no diagnóstico diferencial e escolha do modelo terapêutico específico, torna-se fundamental a realização de uma avaliação urodinâmica, ecografia do aparelho urinário, exames bioquímicos de função renal e culturas de urina (Saito,1991). Com o conhecimento da influência da carga proviral nos distúrbios miccionais e a classificação dos pacientes em relação a sintomatologia neurológica em assintomáticos e TSP/HAM possível, provável e definido (De Castro-Costa et al., 2006), é possível ter uma ação precoce para prevenir o desenvolvimento e progressão da patologia. Os objetivos do presente trabalho foram descrever os sintomas urinários e os achados urodinâmicos presentes na amostra analisada, calcular a prevalência dos distúrbios miccionais e testar a associação dos distúrbios miccionais com carga proviral e sintomatologia neurológica (De Castro-Costa et al., 2006). Para tanto, os pacientes cadastrados no Centro Integrativo e Multidisciplinar de HTLV da EBMSP, Salvador, Bahia que apresentaram alterações urinárias e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido passaram por avaliação clínica urológica e urodinâmica. A investigação é do tipo corte transversal, que utiliza amostra de conveniência e durou dois anos. Os critérios de inclusão são portadores de HTLV-1 com idade = 18 anos e com sintomas de armazenamento e/ou esvaziamento vesical. Os critérios de exclusão são portadores de HIV, hepatite C, diabetes mellitus, portadores de doenças neurológicas, como AVC e Doença de Parkinson, e portadores de outras causas de obstrução infravesical. Ocorreu o recrutamento dos indivíduos que preencheram os critérios de inclusão e não se enquadraram nos critérios de exclusão, a fim de serem entrevistados na consulta urológica. Nesse momento, o indivíduo foi informado sobre o que consta a pesquisa e assinou, se concordou em participar, o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Após isso, realizou-se um questionário urológico, e se necessário, o paciente foi submetido, em outro momento, ao estudo urodinâmico. O tratamento foi definido a partir do resultado do estudo urodinâmico e dos sintomas relatados. Os dados obtidos foram relacionados com a carga proviral, realizada rotineiramente no Centro de HTLV e com a sintomatologia neurológica, definida pelo neurologista. As análises estatísticas, incluindo as freqüências, foram realizadas no SPSS (18.0). Análise de variância não paramétrica Kruskal Wallis com testes de comparação múltiplas Bonferroni-Dunn foram usados para comparar assintomáticos e HAM/TSP (possível, provável e definido). O teste chi-quadrado de Pearson foi utilizado para comparação das cargas provirais com os achados urinários e urodinâmicos. O nível de significância estatística foi considerado como p<0,05. Foram incluídos no estudo 164 indivíduos e realizado o estudo urodinâmico em 87 pacientes (53%). Os sintomas mais prevalentes foram urgência (78%), noctúria (73,2%) e incontinência de urgência (71,3%). Os estudos urodinâmicos mostraram maior prevalência de hiperatividade detrusora neurogênica (69,4%), presença de resíduo pós-miccional significante (52,9%), hipossensibilidade (45,9%) e dissinergia vesico esfincteriana (DVE) (39,3%). Os sintomas urinários estão presentes tanto no grupo de pacientes assintomáticos como em pacientes com TSP/HAM (grupos possível, provável e definido), sendo a primeira manifestação clínica em 40,3% dos pacientes portadores de HTLV-I. Pacientes com cargas provirais maiores que 50000 cópias/106 PBMC apresentaram maior prevalência de sintomas de armazenamento e esvaziamento vesicais, embora não tenha havido diferença em relação aos achados urodinâmicos.

Palavras-chave: HTLV-1; distúrbios miccionais; TSP/HAM

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Anais da MCC., Salvador, v.1, n.3, setembro. 2012, ISSN

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